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Macro Guide

Setembro 2026Athene Macro · Análise Estratégica

Apresentamos o relatório de evolução macroeconômica da Athene Macro, contextualizando as principais transformações conceituais que marcaram a transição entre as leituras de Agosto e as novas dinâmicas observadas em Setembro de 2026, com perspectiva para Outubro. Dois destaques estruturais marcam o mês: a forte valorização dos metais preciosos — com o ouro disparando +7,73% para US$ 4.368,58/oz e a prata +12,63% para US$ 64,97/oz, confirmando a previsão do relatório anterior — e o cenário japonês, com o Banco do Japão em 1,00% a.a. e o iene estabilizado em 160 por dólar, um vetor de incerteza global cuja eventual reversão do carry trade pode reconfigurar fluxos de capital em todo o mundo.

Destaque do Mês

Japão em 1,00%: O Iene Sob Pressão e o Carry Trade

A decisão do Banco do Japão (BoJ) de elevar os juros para 1,00% a.a. em junho de 2026 — o nível mais alto em mais de 30 anos — representa uma inflexão histórica na política monetária japonesa. O movimento responde à desvalorização extrema do iene, que atingiu 160 por dólar, exigindo intervenções cambiais massivas de 11,7 trilhões de ienes por parte do governo.

O carry trade do iene — mecanismo pelo qual investidores tomam emprestado em iene barato para investir em ativos de maior rendimento no exterior — ainda não se reverteu plenamente. Apesar da alta de juros, o iene permanece estabilizado em 160, pois o diferencial de juros entre Japão e EUA continua expressivo. O mercado aguarda sinais adicionais de aperto para uma reversão mais consistente.

A eventual reversão desse mecanismo é o principal vetor de risco global: quando investidores desfizerem posições em dólar para honrar dívidas em iene, o dólar pode enfraquecer significativamente, commodities cotadas em dólar ficam mais baratas e a inflação global recua. Até lá, o cenário permanece de iene fraco, dólar forte e Real sob pressão.

Juros em 1,00%

Nível mais alto em mais de 30 anos, sinalizando fim da era de taxas ultra-baixas no Japão.

Iene em 160/USD

Desvalorização extrema exigiu intervenções de 11,7 trilhões de ienes pelo governo japonês.

Carry Trade Ativo

Diferencial de juros ainda sustenta o carry trade; reversão plena depende de mais aperto.

Fontes: Bank of Japan; Bloomberg; Trading Economics; Banco Central do Brasil — Copom e Boletim Focus; Trading Economics (metais); LBMA; World Gold Council

Evolução do Cenário Macroeconômico: Setembro & Perspectiva Outubro

O Cenário Global: Japão, Iene e o Carry Trade

  • Em Agosto: Apesar da alta de juros do BoJ, o iene permaneceu estabilizado em 160 por dólar — o carry trade ainda não se reverteu plenamente. A moeda japonesa continua sob pressão estrutural, e o mercado aguarda sinais adicionais de aperto monetário para uma reversão mais consistente. O diferencial de juros entre Japão e EUA permanece expressivo, sustentando a atratividade do carry trade no curto prazo.
  • Perspectiva para Setembro: O mercado aguarda a próxima decisão do BoJ em setembro. Caso o banco central sinalize novo aperto monetário, o iene pode ganhar força e iniciar a reversão do carry trade — cenário que desencadearia volatilidade global. Se mantiver o tom acomodativo, o iene tende a permanecer pressionado e o carry trade ativo. O viés é de vigilância: qualquer sinal de aperto adicional é o gatilho para reconfiguração de fluxos de capital.

Comportamento do Câmbio

  • Em Agosto: O Real depreciou-se para R$ 5,20 — o maior patamar do ano. A depreciação acumulada desde janeiro (de R$ 5,00 para R$ 5,20) reflete a combinação de incerteza fiscal, ciclo de cortes da Selic e robustez do dólar.
  • Perspectiva para Setembro: O Focus projeta leve recuperação para R$ 5,18 em setembro, mas o viés permanece de cautela. A dinâmica do dólar global e o cenário fiscal doméstico continuam a ditar a direção cambial. Uma eventual reversão do carry trade do iene pode enfraquecer o dólar globalmente, aliviando a pressão sobre o Real — mas até lá, a exposição em moeda forte mantém seu papel de proteção estrutural. Adicionalmente, podemos ver uma maior desvalorização do dólar caso as pesquisas eleitorais apontem para uma alternância de poder, cenário que reconfiguraria expectativas fiscais e cambiais. Em paralelo, o esforço global coordenado de valorização do dólar para conter a pressão inflacionária adiciona um vetor de tensão: a interação entre esses movimentos define o tombo cambial de setembro.

Inflação e a Curva de Juros

  • Em Agosto: O Copom reduziu a Selic para 14,00% a.a. em 5 de agosto — quinto corte consecutivo de 0,25 p.p. desde o pico de 15,00% em março. As projeções do Focus recuaram para 5,02%, após pico de 5,30% em junho. A mediana Focus aponta manutenção em 14,00% ao fim de 2026, sinalizando que o mercado precifica pausa no ciclo de cortes.
  • Perspectiva para Setembro: Para setembro, a mediana Focus aponta IPCA em 5,01% (leve recuo) e Selic em 14,00% (manutenção ou novo corte de 0,25 p.p.). O mercado precifica pausa nos próximos encontros do Copom, confirmando a maturação do ciclo de cortes. A convergência da inflação ao centro da meta (4,50%) permanece lenta, sustentando a cautela do banco central.

Análise Conceitual por Classe de Ativos: Setembro & Perspectiva Outubro

Câmbio e Ativos Expostos ao Dólar

  • Em Agosto: Com o Real em R$ 5,20 — maior patamar do ano — a proteção cambial ganha ainda mais relevância. A depreciação gradual ao longo de 2026 reforça a tese de manutenção de exposição em moeda forte como componente estrutural do portfólio.
  • Perspectiva para Setembro: Para setembro, a projeção de leve recuperação (R$ 5,18) não altera a leitura de fundo: o viés cambial permanece de cautela. A manutenção de exposição em moeda forte continua como componente estrutural do portfólio, cumprindo papel duplo — retorno e hedge contra choques fiscais. Uma eventual reversão do carry trade do iene pode aliviar a pressão sobre o Real no curto prazo, podendo levar o dólar mais próximo dos R$ 5,00 ou até mesmo retornar às mínimas recentes.

Renda Fixa Indexada à Inflação (IPCA+)

  • Em Agosto: Com o IPCA Focus em 5,02% e o Copom em 14,00%, a curva real continua a precificar um terminal mais baixo. O prêmio em pontos longos das NTN-B permanece atrativo, mas a janela para capturar máximos de taxa real se estreita à medida que o ciclo de cortes amadurece. A posição longa indexada permanece relevante, com atenção à duration.
  • Perspectiva para Setembro: Com o IPCA Focus projetado em 5,01% e a Selic em pausa, a curva real tende a estabilizar. A janela para capturar máximos de taxa real se estreita ainda mais — a posição longa indexada permanece relevante, mas a gestão de duration ganha centralidade. O prêmio em NTN-B longas ainda compensa o risco fiscal residual, mas o ritmo de ajuste da curva deve desacelerar.

Renda Variável (Ações)

  • Em Agosto: O quinto corte consecutivo para 14,00% reforça a tese de renda variável doméstica: custo de capital em queda e consumidores beneficiados pelo ciclo de afrouxamento. Contudo, a depreciação do Real para R$ 5,20 impõe atenção seletiva — empresas importadoras e com dívida em dólar enfrentam pressões, enquanto exportadoras se beneficiam. O foco permanece em companhias com previsibilidade de fluxo de caixa e baixa alavancagem em moeda estrangeira.
  • Perspectiva para Setembro: Com a Selic em pausa projetada e o Real em leve recuperação (R$ 5,18), o ambiente para renda variável permanece favorável, mas a seletividade é crucial. Exportadoras continuam beneficiadas pelo patamar cambial elevado, enquanto importadoras seguem sob pressão. O foco permanece em companhias com previsibilidade de fluxo de caixa e baixa alavancagem em dólar — o viés é de manutenção das posições com atenção ao cenário japonês.

Metais Preciosos e Ativos Internacionais

  • Em Agosto: A previsão do relatório anterior se confirmou: o ouro valorizou +7,73% no mês, atingindo US$ 4.368,58/oz. A prata liderou os ganhos com +12,63% no mês, alcançando US$ 64,97/oz. Tensões geopolíticas crescentes (EUA-Irã), expectativas de política monetária do Fed e a demanda industrial por prata (energia solar e IA) sustentam a tese. O cenário japonês (BoJ em 1,00%, iene em 160) adiciona um vetor de incerteza global: a eventual reversão do carry trade pode desencadear volatilidade. Metais preciosos permanecem como hedge estrutural contra instabilidade fiscal e cambial. (Fontes: Trading Economics; LBMA; World Gold Council)
  • Perspectiva para Setembro: Para setembro, a tese de metais preciosos permanece intacta: tensões geopolíticas (EUA-Irã), demanda industrial por prata (energia solar e IA) e a janela de política monetária coordenada (dólar enfraquecido até as eleições globais) sustentam o viés altista. A eventual reversão do carry trade do iene pode desencadear volatilidade de curto prazo, mas reforça o papel dos metais como hedge estrutural. A manutenção das posições em ouro e prata continua como componente central da proteção do portfólio.

Perspectivas para Outubro

Agosto consolida um cenário de ciclo de cortes em maturação: a Selic em 14,00% após cinco reduções consecutivas, o IPCA Focus em 5,02% em trajetória de convergência e o Real em R$ 5,20 — maior patamar do ano. O mercado precifica pausa nos próximos encontros do Copom, com a mediana Focus apontando manutenção em 14,00% ao fim de 2026.

Para setembro, as projeções apontam: Selic em 14,00% (manutenção ou novo corte de 0,25 p.p.), IPCA Focus em 5,01% (leve recuo) e Real em R$ 5,18 (leve recuperação). O vetor de incerteza principal permanece o cenário japonês: se o carry trade do iene começar a se reverter, o impacto global pode ser significativo.

Perspectiva Global

No plano global, o controle da inflação exige coordenação: todos os países — incluindo os Estados Unidos — deverão adotar medidas para manter o dólar enfraquecido, pelo menos até que as eleições ao redor do mundo sejam concluídas. Um dólar mais fraco reduz a pressão inflacionária sobre commodities cotadas em moeda americana e facilita o ajuste comercial entre economias. Esta janela de política monetária coordenada sustenta, no curto prazo, a tese de metais preciosos e ativos em moedas emergentes — mas exige vigilância quanto à reversão desse alinhamento uma vez passado o ciclo eleitoral.

A lógica de alocação privilegia: manutenção de exposição em moeda forte como proteção cambial estrutural; renda fixa indexada com atenção à duration à medida que o ciclo amadurece; renda variável doméstica seletiva (empresas com baixa alavancagem em dólar); e metais preciosos como hedge estrutural — com o ouro em US$ 4.368,58/oz (+7,73% no mês) e a prata em US$ 64,97/oz (+12,63% no mês), ambos confirmando a previsão do relatório anterior e sustentados por tensões geopolíticas e demanda industrial. A preservação do capital com diversificação geográfica e de ativos-refúgio continua sendo a bússola da gestão.

Análise dos Dados

Setembro de 2026

01

Iene Sob Pressão — USD/JPY em 160

O Banco do Japão elevou os juros para 1,00% a.a. em junho — o nível mais alto em mais de 30 anos — para conter a desvalorização do iene, que atingiu 160 por dólar. Apesar da alta, o iene permanece pressionado: o carry trade ainda não se reverteu plenamente e intervenções cambiais de 11,7 trilhões de ienes foram necessárias.

Mar/26Abr/26Mai/26Jun/26Ago/26140147154165

Fonte: Bank of Japan; TradingView; Bloomberg

02

Copom Reduz Selic para 14,00% — Ciclo de Cortes (%)

O Copom cortou a Selic para 14,00% a.a. em agosto, quinto corte consecutivo de 0,25 p.p. desde o pico de 15,00% em março. A mediana do Focus aponta manutenção em 14,00% ao fim de 2026, sinalizando que o mercado precifica pausa nos próximos encontros.

Selic (14,00%)Mediana Focus
Abr/26Jun/26Jul/26Set/2613.51414.51515.5

Fonte: Banco Central do Brasil — Copom; Boletim Focus

03

Real Deprecia para R$ 5,20 — BRL/USD

O Real depreciou-se para R$ 5,20 em agosto — o maior patamar do ano. A trajetória de depreciação gradual (de R$ 5,00 em janeiro para R$ 5,20 em agosto) reflete preocupações fiscais e a força do dólar global. Para setembro, o Focus aponta leve recuperação para R$ 5,18.

Jan/26Mar/26Mai/26Jul/26Set/264.84.955.15.255.4

Fonte: TradingView; Yahoo Finance; Banco Central do Brasil

04

Inflação em 5,02% — IPCA Projeção Focus (%)

As projeções do Focus recuaram para 5,02% em agosto, após pico de 5,30% em junho. Ainda acima da meta de 4,50%, mas em trajetória de convergência. Para setembro, a mediana aponta 5,01%, confirmando a lenta aproximação ao centro da meta.

Abr/26Mai/26Jun/26Jul/26Set/264.54.7555.255.5

Fonte: Banco Central do Brasil — Boletim Focus

05

Metais Preciosos Disparam — Ouro e Prata (US$/oz)

O ouro valorizou +7,73% no mês, atingindo US$ 4.368,58/oz — confirmando a previsão do relatório anterior. A prata liderou os ganhos com +12,63% no mês, alcançando US$ 64,97/oz. Tensões geopolíticas (EUA-Irã) e a demanda industrial por prata (energia solar e IA) sustentam a tese de metais como hedge estrutural.

Ouro (US$/oz)Prata (US$/oz)
Abr/26Jun/26Ago/264000415043004450460055626980

Fonte: Trading Economics; LBMA; World Gold Council

Alessandro M. Griep

Counselor / Partner

Alessandro M. Griep

Economista · CEA — Certificação de Especialista em Investimentos ANBIMA. Responsável pela leitura macroeconômica e pela construção da tese estratégica que sustenta as recomendações desta Carta Mensal.

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